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A Proteção do Proprietário e do Adquirente de Boa-fé em Casos de Fraude Imobiliária


Em um recente julgamento, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) no Recurso Especial n° 2.115.178, Relatora Nancy Andrighi, abordou uma questão delicada e complexa que envolve a proteção do proprietário original e a boa-fé do terceiro adquirente em transações imobiliárias. O caso tratava da aquisição de um imóvel cuja propriedade havia sido transferida com base em uma escritura pública que, posteriormente, foi considerada inexistente.

 

1. O Caso em Concreto 


O espólio do legítimo proprietário ajuizou uma ação de nulidade e inexistência de negócio jurídico contra o réu, alegando que a venda de um imóvel nunca ocorreu. A suposta escritura pública de compra e venda, registrada anos após o alegado negócio, foi contestada e comprovadamente não existia. O réu, por sua vez, havia vendido o imóvel a uma empresa, que o adquiriu de boa-fé, sem conhecimento da irregularidade.

 

O espólio requereu a anulação do registro de propriedade e a devolução do imóvel, enquanto a empresa, confiando na legalidade do registro, pleiteava a manutenção da posse com base na sua boa-fé.

 

2. A Proteção ao Adquirente de Boa-fé e o Direito de Reivindicação do Proprietário

 

O tema central deste julgamento foi o embate entre dois princípios jurídicos de extrema importância no direito imobiliário: a proteção ao adquirente de boa-fé e o direito do legítimo proprietário de reivindicar a posse de seu imóvel.

 

A empresa, amparada pelo art. 54, § 1º, da Lei nº 13.097/2015, sustentou que a boa-fé deveria prevalecer, uma vez que não havia qualquer irregularidade aparente na matrícula do imóvel que indicasse um vício no título de propriedade. Essa norma visa assegurar ao adquirente que, ao confiar nos registros imobiliários, não será surpreendido por situações ocultas, como dívidas ou disputas judiciais não registradas.

 

No entanto, o STJ, fundamentando-se no art. 1.247, parágrafo único, do Código Civil, entendeu que a proteção à boa-fé do adquirente não se aplicava à hipótese de fraude no registro de propriedade. Neste caso, o registro era baseado em uma escritura pública que nunca existiu, configurando um vício de origem no título de propriedade. Assim, o legítimo proprietário (ou seu espólio) tem o direito de reivindicar o imóvel, independentemente da boa-fé do terceiro adquirente.

 

3. Decisão do STJ: A Proteção do Legítimo Proprietário

 

O STJ decidiu que o cancelamento do registro de propriedade, por ter sido baseado em uma escritura pública inexistente, autoriza a reivindicação do imóvel pelo proprietário original, mesmo que o adquirente posterior tenha agido de boa-fé. A empresa, portanto, não pôde manter a propriedade do imóvel, mas foi orientada a buscar uma reparação contra o vendedor fraudulento.

 

4. Implicações Práticas e Lições para os Adquirentes de Imóveis

 

Este julgamento reforça a importância da segurança nas transações imobiliárias e o rigor na verificação da legitimidade dos documentos. Embora o registro de imóveis ofereça proteção aos adquirentes de boa-fé, essa proteção não é absoluta em casos de fraude documental. O legítimo proprietário, que nunca alienou o bem, mantém seu direito de reivindicar a propriedade.

 

Portanto, é essencial que os compradores adotem cautelas adicionais antes de adquirir um imóvel, como uma investigação detalhada do histórico de propriedade e uma análise aprofundada de toda a documentação. Embora o registro de imóveis seja uma garantia valiosa, este caso demonstra que a confiança exclusiva no registro pode não ser suficiente para evitar complicações futuras.

 

5. Conclusão

 

O equilíbrio entre a proteção ao adquirente de boa-fé e o direito do proprietário original é uma questão fundamental no direito imobiliário. O STJ, ao reafirmar o direito de reivindicação do proprietário em casos de fraude, garante a justiça e a segurança jurídica, permitindo que os adquirentes prejudicados busquem reparação por meio de ações indenizatórias, sem invalidar o direito à propriedade. Esse entendimento reforça a importância da due diligence em negociações imobiliárias e a relevância de uma análise cuidadosa antes da compra de qualquer bem imóvel.


Fonte: Recurso Especial n° 2.115.178, Relatora Nancy Andrighi


Jorge Matos

Advogado Imobiliário 

Instagram: Jorgematos.adv

Contato: (85)999543123

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